Dinheiro e Felicidade

Foto: Micheile Henderson/Unsplash

Um trecho da música “Comida”, da banda Titãs diz: “A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e Felicidade”. Mas será que dá pra ter os dois? Será que dinheiro traz Felicidade? Quem tem mais dinheiro é mais feliz? 

A literatura que examina a relação entre dinheiro e Felicidade apresenta argumentos e resultados de pesquisas tanto a favor quanto contrários a essa associação. Neste artigo, vamos apresentar alguns desses estudos e abordar questões como adaptação, comparação, família, prioridades, a relação tempo x dinheiro e o comportamento em relação ao nosso dinheiro.

Dinheiro traz Felicidade?

Não… e sim! Estudos apontam que ter mais dinheiro não nos faz mais felizes, pois quando temos nossas necessidades básicas satisfeitas, uma renda mais alta não estaria associada a um nível mais elevado de Felicidade. Essa ideia traduz o Paradoxo de Easterlin, segundo o qual um aumento de renda e, por consequência, de bens materiais, não traz um aumento duradouro e na mesma proporção do nível de Felicidade.

A associação entre dinheiro e Felicidade, para Easterlin, faria sentido até o ponto em que as necessidades básicas são atendidas. A partir daí, a renda teria um impacto cada vez menor. Isso se deve à nossa capacidade de adaptação e de comparação social. Ou seja, à medida que uma pessoa evolui financeiramente, ela tende a se acostumar com os novos padrões e, portanto, passa a desejar mais, além de comparar sua situação financeira à de pessoas com maior poder aquisitivo

Foto: Shane/Unsplash

Por exemplo, depois de comprar ou construir a casa dos sonhos, passamos a desejar algo mais. Um carro mais novo, smartphones de última geração, viagens inesquecíveis, frequentar restaurantes VIPs  ou outros bens materiais e experiências. E como diz o ditado, “a grama do vizinho sempre é mais verde”. Conforme mostra outro estudo, não é o dinheiro em si que conta, mas a posição social gerada pelo dinheiro e uma maior satisfação geral com a vida. 

Até aqui vimos a parte do “Não”. Agora vamos ver o que dizem estudos que apontam o “Sim”. 

Algumas pesquisas refutam a ideia de que dinheiro não gera um aumento duradouro de Felicidade e afirmam que essa relação é razoavelmente linear e que não diminui com o aumento da renda.  Um famoso estudo do ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2002, Daniel Kahneman, identificou que ter mais dinheiro está associado a um melhor bem-estar emocional. Quando temos mais dinheiro, tendemos a ser mais felizes. Tanto em termos pessoais, quanto entre países. 

Na comparação entre diferentes países, a satisfação pessoal é maior entre as pessoas que vivem em nações mais ricas. Pessoas com renda mais alta tendem a ser mais felizes do que as que têm menos recursos financeiros, o que reforça a relação entre dinheiro e Felicidade. Isso contradiz a ideia de que ambos só estão relacionados até o ponto em que as necessidades básicas são atendidas.

Outro estudo identificou que, em família, a renda apresenta um impacto positivo sobre os níveis de Felicidade. Mas mesmo assim, ainda que a renda contribua para a Felicidade até certo ponto, a qualidade dos relacionamentos familiares revela-se muito mais importante. É o que mostra uma pesquisa desenvolvida durante 10 anos com 274 casais. Afinal, para a maioria das pessoas, ter fortes laços familiares é um indicador de Felicidade mais significativo do que a renda. 

Dinheiro e Felicidade: prioridades

Embora possamos pensar que pessoas com mais dinheiro tendem a ser mais felizes, a ideia de priorizar o dinheiro ao longo do tempo pode, na verdade, minar nossa Felicidade. De uma maneira geral, tanto o dinheiro quanto o tempo são recursos escassos que as pessoas acreditam que podem trazer mais Felicidade.

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Um estudo com mais de 1000 alunos que se formaram na University of British Columbia, no Canadá, avaliou se eles valorizavam mais o tempo em relação ao dinheiro ou o inverso. Os resultados revelaram que a maioria dos alunos priorizava o tempo. Ainda assim, quase 40% deles relataram priorizar o dinheiro.

Numa segunda etapa, os pesquisadores mensuraram o nível de Felicidade dos alunos em dois momentos: antes da formatura e um ano depois. Aqueles que priorizaram o dinheiro apresentaram níveis mais baixos de Felicidade, em comparação com os colegas que priorizaram o tempo. 

Em um estudo semelhante, mas envolvendo mais de 4.400 pessoas, 2/3 dos entrevistados relataram preferir ter mais dinheiro do que mais tempo. Entretanto, a avaliação do nível de Felicidade dos respondentes de cada grupo revelou que as pessoas que optaram por mais tempo estavam mais felizes com suas vidas.

Obviamente isso não significa que se deva recusar um aumento de salário para ter mais tempo livre. Contudo, ganhar mais dinheiro não tende a aumentar o nível de Felicidade na mesma proporção. O que a maioria das pesquisas sugere é que, ao final, o que conta é a nossa atitude em relação ao dinheiro. Ou seja, a maneira como economizamos, gastamos e investimos nosso dinheiro é que determina a relação dele com nossa Felicidade. 

A relação pessoal com o dinheiro

Muita gente reconhece que precisa de orientação ou de aconselhamento sobre como ganhar, economizar e investir seu dinheiro. Entretanto, quando se trata de gastar esse dinheiro, a maioria das pessoas segue apenas sua intuição. E nem sempre a intuição pode dar certo. 

Foto: Annie Spratt/Unsplash

Dinheiro foi feito para gastar… na hora certa! O dinheiro pode, de fato, aumentar a Felicidade se for gasto da “maneira certa”. Pessoas que gastam mais em produtos ou serviços que combinam com sua personalidade relatam níveis mais elevados de satisfação com a vida.

Na nossa relação com o dinheiro é fundamental considerar que ele não é um fim em si, mas um meio para o nosso bem-estar. A grande diferença é que o bem-estar não pode ser medido com a mesma exatidão que o dinheiro. Mas se ainda assim você achar que o dinheiro pode comprar Felicidade, considere três aspectos determinantes para isso.

  1. Escolha comprar experiências, não produtos físicos ou bens materiais. O fato de coisas materiais serem tão facilmente comparáveis ajuda a explicar porque, muitas vezes, elas acabam sendo insatisfatórias. Já as experiências são mais difíceis de comparar.
  1. Invista em tempo. Pode ser difícil encontrar tempo para desfrutar de experiências especiais, principalmente quando temos tantas tarefas e responsabilidades. Mas investir em serviços que economizam nosso tempo tende a gerar maior satisfação com a vida. 
  1. Invista nos outros. Proponha essa experiência para você mesmo: separe uma pequena quantia de dinheiro e use para beneficiar alguém hoje. Pode ser um pequeno presente para um amigo, uma ajuda para um estranho que, visivelmente, necessita ou até mesmo uma doação para uma instituição que seja importante para você. 

Embora possa ser tentador gastar esse dinheiro consigo mesmo, é bem provável que você fique feliz gastando com outra pessoa. É importante que sua decisão de ajudar seja feita livremente, que seja algo que você escolhe fazer e não algo que se sente forçado a fazer. 

Busque oportunidades que lhe permitam ver como sua generosidade está fazendo a diferença para uma pessoa ou para uma causa que realmente importa para você. Certamente será uma forma de usar seu dinheiro para trazer Felicidade. Mesmo que pareça que você a está comprando.

E então, depois de conhecer algumas pesquisas sobre a relação dinheiro e Felicidade, qual é o seu ponto de vista? Para você, dinheiro traz Felicidade de forma constante ou somente até certo ponto?

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