3-D: João Canoeiro

por Emir Nunes Moreira*

O 3-D é um espaço para todos que desejam fazer uma Pausa e compartilhar seu olhar sobre Felicidade.

Aqui serão publicados contos, crônicas, ensaios, resenhas, poemas e outros formatos de textos que apresentem relação com o tema Felicidade.

Foto: Sébastien Goldberg/Unsplash

O Rio Nhamundá, importante afluente da margem esquerda do Rio Amazonas, nasce na Serra do Jatapu e corre entre os estados do Pará e Amazonas por 470 quilômetros. É um rio de águas negras, muito sinuoso e, por isso, com navegação comercial praticamente impossível, localizado em região minimamente habitada.

Guarda em suas águas uma formidável coleção de peixes preciosos, em especial os de couro, servindo aos poucos privilegiados moradores que habitam as suas margens.

João Canoeiro é um desses. 

Ele nasceu e sempre viveu nessa região, muitos quilômetros longe de qualquer cidade, mínima que seja. Apenas ele, a mulher e os três filhos, ou toda sua fortuna, como costuma afirmar com orgulho.

Faz do rio dadivoso o seu sustento, dele retirando o peixe para a alimentação da família, nunca em demasia, por respeito à natureza. Pesca tão-somente o que necessita. Nos meses de cheias, de janeiro a julho, costuma estocar o peixe previamente defumado, pois nesse período a pesca torna-se muito difícil e perigosa.

Da mata retira as frutas nutritivas que a região amazônica fornece em profusão, além de sua pequena criação de aves e alguns porcos. Mantém ainda uma roça bem sortida. 

É o que João Canoeiro necessita para a manutenção saudável da sua família, isolada nesse mundão de Deus, sem televisão, rádio, refrigerador ou outros itens imprescindíveis no mundo civilizado. Essas coisas não compõem o seu kit de Felicidade. 

Acima de tudo, João Canoeiro é um caboclo extremamente feliz com o pouco que tem, o necessário para a sua manutenção e dos seus. Todos os dias, ao nascer do sol, agradece a Deus por todas as suas dádivas.

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Carlinhos Mineiro é um jogador de futebol em vias de aposentadoria; craque com passagens pela seleção nacional, clubes do Brasil e três das maiores equipes da Europa. 

Multimilionário, com propriedades em diversas cidades pelo mundo, além dos mais modernos e rápidos carros da atualidade. Enfim, tudo o que o dinheiro farto pode comprar.

No quarto casamento e de férias, Carlinhos Mineiro vive um momento complicado na vida. Tem todos os bens materiais que deseja, mas, ao mesmo tempo, convive com um vazio interior que o está mortificando. E, o pior, não consegue identificar o que o atormenta.

Ele solicita, então, ao seu agente que o leve para um lugar único, sossegado, de preferência pouco habitado, precisa de um encontro consigo mesmo. Em uma viagem que dura horas de avião, helicóptero, carro e um barco potente, acaba subindo o Rio Nhamundá e o destino o coloca exatamente na humilde e alegre casa de João Canoeiro. 

Suprema ironia, o consagrado e rico futebolista, com dinheiro capaz de realizar todos os sonhos materiais, mas carente de não sabe o quê, frente ao matuto de vida simples e pacata, com o mínimo para viver, mas nadando em Felicidade.

– Seu João – pergunta-lhe Carlinhos Mineiro, o senhor vive aqui neste fim de mundo, isolado da civilização, sem os benefícios da cidade grande, como pode ser assim tão feliz?

– Olha moço, tenho saúde, graças a Deus, uma mulherzinha preciosa e três filhos maravilhosos. O rio me dá o peixe e a floresta, a fruta. Sou freguês da natureza, moço, apanho tudo o que preciso para viver. E, o melhor, não pago por nada disso. E o senhor, moço, o que faz?

– Sou jogador de futebol, seu João, agora morando no Brasil, mas já rodei o mundo todo. Continuo ganhando muito dinheiro, realizo todos os meus desejos, tenho tudo o que quero. Ou quase tudo, eu acho…

– Então, seu moço, o senhor deve ser um homem muito feliz, certo?

Interessante os conceitos de Felicidade. Para uns é um estado de ânimo, que se traduz num sentimento de satisfação. Há os que consideram o ser feliz uma sensação de bem-estar e contentamento, que pode ocorrer por diversos motivos. E há os que resumem que Felicidade é, simplesmente, se sentir bem. 

O famoso jogador, o homem do mundo, o detentor de uma conta milionária e bens invejáveis não se sente feliz e começa a entender a causa.

– Moço, o senhor compra tudo o que precisa, certo? Eu pego o peixe no rio. Tem tucunaré, bicuda, traíra, jacundá, piapara, surubim, diz João. Desta mata maravilhosa tenho as frutas açaí, buriti, pupunha, tucumã, cupuaçu, em grande quantidade; bastante pra gente e pros bichos. E tudo de graça, não pego fila e nem preciso pagar. Pode ter vida melhor e mais feliz do que a minha, moço?

Carlinhos Mineiro, o ídolo das massas, rico e famoso, com mais dinheiro que jamais sonhara, definitivamente não é um homem feliz. E um matuto, pobre e sem vivência do mundo chamado civilizado, mas efusivamente feliz, acaba dando-lhe uma definitiva lição do que é Felicidade.

Quando compôs a música Felicidade, Lupicínio Rodrigues abordou com maestria o tema, com uma frase que aqui cabe como uma luva: “Felicidade foi embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora…”

(Melbourne, Victoria, setembro de 2015)

*Emir Nunes Moreira se autodefine como “poeta há mais de meio século e um esforçado escritor, contista e cronista”. Apaixonado pelas letras, tem na poesia a sua origem e fonte maior da sua Felicidade interior.

Para Moreira, “a Felicidade está sempre nos rondando. Nossa sensibilidade é que irá detectar quando e como teremos o privilégio de acessá-la. Não marca hora ou lugar; manifesta-se sem aviso e pode estar presente nas coisas mais simples da vida, como o doce sorriso de uma criança, o sono gostoso com o tamborilar da chuva no telhado ou o puro silêncio, quando corpo e alma estão alinhados com o universo e somos invadidos por uma paz que não tem preço”.

Ele destaca uma frase de Romano Battaglia, no livro Silenzio: “La Felicità non si compra, si vive”.